Buscar
  • h.d.mabuse

Estética política do capitalismo


A importância do lançamento no Brasil do primeiro livro de Mark Fisher, Realismo Capitalista, publicado originalmente em 2009, e lançado agora pela Autonomia Literária, me faz escrever essas poucas linhas para dar conta de uma primeira e incompleta leitura da sua obra.

Nascido no ano de 1968 em East Midlands, região de forte presença do movimento operário, notável por ter dado ao mundo a literatura de Thomas Hardy e o levante Ludita de 1810. Mark Fisher, ainda nos anos 1990, segue uma jornada que combina uma relação conflituosa com a academia, e a proximidade com produção cultural. Dessa forma tornou-se um pensador de difícil classificação, já foi considerado (entre outros rótulos) cyberpunk, aceleracionista, crítico cultural, marxista, acadêmico e blogueiro.


Fisher nunca se sentiu plenamente à vontade na academia, o que pode ser observado no seu currículo que se distribui entre o estudo de literatura e filosofia em Hull, dos anos de 1986 até 1989, seguido por um retorno à Universidade, motivado pelo encontro com a cyberfeminista Sadie Plant, que será sua orientadora no mestrado em Birmingham no ano de 1995, e que, ao aceitar um novo cargo em Warwick, traz consigo vários de seus estudantes, incluindo Fisher.


É em Warwick que Fisher encontra uma contradição que contribuirá de forma singular para a sua formação. Criada na década de 1960, Warwick é uma universidade com forte presença de militância de esquerda entre estudantes e professores, teve em seus quadros o historiador socialista E.P. Thompson, tido como "uma pedra no sapato da administração". Ao mesmo tempo foi uma das primeiras universidades britânicas a adotar o financiamento privado de um modo completamente alinhado com a gestão de Margareth Tatcher.

É nessa instituição que Fisher participa como co-fundador do CCRU: Cybernetic Culture Research Unit (Unidade de Pesquisa em Cultura Cibernética), ligado inicialmente ao Instituto de Filosofia de Warwick (o segundo maior centro de filosofia britânico depois de Oxford, e fortemente influenciado pela filosofia continental) e que, apesar da produção e impacto nas discussões principalmente após 2000, nunca foi oficializado. Nesse contexto de possibilidades junta-se a Fisher e Plant aquele que seria figura central do CCRU o professor Nick Land.


Fortemente ligado ao que hoje é conhecido como aceleracionismo, Land assumiu a frente da CCRU após a saída de Plant, e foi influenciado por Deleuze e Guattari, em especial no entendimento do capitalismo como um movimento revolucionário (nos termos deleuzeanos: ao decodificar e desterritorializar) e ao mesmo tempo reterritorializando velhos códigos e simulações das culturas que tiverem seus fluxos liberados. Nesse contexto a estratégia aceleracionista era: no lugar de buscar um duvidoso retorno à um estado anterior ao do capitalismo neoliberal, "acelerar o processo" de decodificação e desterritorialização do capitalismo, em busca de sua superação.


Para além da produção científica, o CCRU investigava as possibilidades estéticas de produção de conhecimento, incluindo performances audiovisuais ao formato tradicional acadêmico da palestra, e tem como contribuição singular a reflexão da importância teórica da forma ficção (Teoria-Ficção) e a Hiperstição, neologismo que agrupa superstição com hiper e representa uma "tecnociência experimental de profecias auto-realizáveis".

Com a saída de Nick Land do CCRU, após algum tempo o próprio Fisher se afasta do grupo, e inicia seu exercício como professor da Educação Continuada, para os estudantes da classe trabalhadora. É nesse momento que começa a escrever seu Blog K-Punk, e encontra o espaço na produção e diálogo da blogosfera, experiência descrita pelo espinosista como uma "rede despersonalizante e dessubjetivizante, que produz encontros mais alegres em um processo de retroalimentação positiva”. Com isso Fisher se afasta das ideias do CCRU (pós-humanismo, antipolítica, em alguns sentidos do próprio aceleracionismo) e, ao ler Slavoj Zizek, se reaproxima da compreensão da realidade moderna da esquerda socialista.


É nesse período que se revela em sua obra a memória das lutas operárias e as derrotas na década de 1980. Da perda das eleições pelo Partido Trabalhista em 1983 até o fim da greve histórica dos mineiros de mais de um ano, sem nenhum ganho, em 1985. Tais fatos foram marcantes para sua formação. Ao descrever os acontecimentos do ano de 1985, Fisher tece uma relação entre a música pop e a luta sindical da greve dos mineiros: "1985 foi o ano do Live Aid, o início de uma época do falso consenso que é a expressão cultural do capital global. Se o Live Aid foi o não evento que aconteceu, a greve foi o Evento que não aconteceu".


Fisher entende o ano de 1985 como um marco para o início de um processo de decomposição violenta dos coletivos políticos, com a derrota amarga da greve dos mineiros, se explicita um ponto que se torna central na obra de Fisher: um programa de política neoliberal para a privatização da mente um estado das coisas onde claramente ainda há divisão de classe, mas já não existe a experiência coletiva de classe.

Essas são as reflexões do seu primeiro livro, Realismo Capitalista, publicado em 2009 e considerado obra incontornável para os estudos da ideologia na contemporaneidade, Fisher inicia assim a construção teórica que aponta, na causa da vitória do modo de existência capitalista, mais do que a conquista das consciências: a colonização do próprio inconsciente.


Com o subtítulo É mais fácil pensar no fim do mundo do que no fim do capitalismo, frase ora atribuída a Slavoj Zizek, ora a Fredric Jameson, a ideia central do livro está na compreensão de que, com a queda do muro de Berlin e o fim da União Soviética, o tão cantado fim da história de Fukuyama nos aparece como "o sentimento disseminado de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, sendo impossível imaginar uma alternativa à ele".


A partir de sua obra (que inclui livros, sua produção acadêmica e publicações em blogs), Fisher é classificado hoje dentro de um cenário do "Novo Marxismo", uma categoria que tem autores de áreas tão diversas quanto arte, cultura, ciência política e psicanálise. Ficando assim do lado de autores que foram importantes também para sua formação, como Gilles Deleuze, Felix Guattari, Frederic Jameson e Slavoj Zizek.


Uma constelação de contradições marca a vida e obra de Fisher, seja a diferença encontrada entre posicionamentos políticos dos primeiros até os últimos textos do seu blog, seja como pensador fortemente influenciado por Espinosa, numa ação rumo à uma busca da alegria e conhecimento como mais fortes afetos, enquanto decidiu tirar a própria vida em 2017, ou ainda em um autor que parte de sua realidade local britânica para tratar da subjetividade dentro no neoliberalismo, a partir de traumas coletivos traduzidos em experiências vividas e que nos soa muito próximo, o que nos leva a pensar em suas ideias com um status próximo da universalidade, talvez pelo fato que, como disse o diretor de cinema sul-coreano Bong Joon-ho, no momento vivemos todos no mesmo país: o capitalismo.

32 visualizações5 comentários