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  • h.d.mabuse

O polímata recifense Neilton Carvalho


Em meados da década de 1990, durante uma entrevista à revista Wired, Brian Eno, nomeado pelo repórter como o homem “Renascentista 2.0″ por excelência, foi questionado: caso houvesse a possibilidade de viagem no tempo, para qual época gostaria de ir? contrariando a lógica eurocêntrica da revista, prontamente respondeu que o destino seria algum momento entre o início do século XI até meados do século XIII, direto para o apogeu intelectual do mundo Árabe.

A escolha não poderia ser mais acertada, “Existem analogias entre esse momento e hoje. Houve uma grande mudança de mentalidade. Antigos sistemas caíram, e, dolorosamente, novos nasceram. Houve uma redefinição de equilíbrio entre ciência e alquimia, filosofia e religião”, quase vinte anos se passaram dessa entrevista, e esse entendimento está ainda mais vivo.

Nesse momento em que vivemos, de mudanças e transformações sociais, econômicas e políticas, quando nações em desenvolvimento tomam um lugar de destaque nos jogos de poder do mundo, e exportam suas culturas, através de imigrações, produtos e mídias, com a potencialidade de alcance das redes e facilidades de mobilidade, quando novidades na ciência prometem uma mudança sem precedentes do nosso entendimento de mundo, é o momento de olharmos para nossa localidade, e encontrar no nosso quintal os exemplos de novas soluções para os sempre presentes novos problemas. Soluções que, dessa feita, não vem de uma distante europa em crise, mas do Alto Zé do Pinho.

Assim como os polímatas Averróis e Avicena, que produziram obras nas áreas das medicina, filosofia e poesia, Neilton Carvalho, não contente em ser guitarrista do Devotos, banda punk que é referência no mundo, ainda é artista plástico, com uma prolífera obra figurativa em pintura à óleo, e designer de produto como um dos empreendedores do Altovolts, autointitulado grupo de pesquisa em tecnologias mortas, laboratório/ateliê de onde saem alguns dos melhores amplificadores de guitarra valvulados do país.

E é nessa visão de Neilton, que intuitivamente nega uma antiga ideologia industrial e coloca a mesma energia em trabalhos de design que flertam com a arte, equipamentos de engenharia eletrônica que encontram com o artesanato e a música lapidada no encontro de todos esses domínios, que podemos ver bem vivo, no Nordeste do Brasil, um novo caminho que encontra na história o diálogo com a efervescência de um apogeu árabe, curiosamente sempre tão presente nas nossas ruas e nosso sertão!


Originalmente publicado em 10 de Julho, 2017

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