Em 2012, apresentei um texto no congresso anual da ANPOCS intitulado “América Latina e o giro decolonial”. No ano seguinte, ele foi publicado pela Revista Brasileira de Ciência Política em seu décimo primeiro número. No dia de hoje, ele conta com 3.246 citações no google scholar, um caso de recepção intrigante para um artigo de ciências sociais – tanto pelo volume quanto pela variação discrepante das áreas que o mobilizam. Desde então, minha associação com os estudos decoloniais se tornou inevitável. Já em 2013, fui alvo de Olavo de Carvalho, figura obscura da extrema-direita brasileira, alçada posteriormente à posição de ideólogo do bolsonarismo. Provavelmente “denunciada” por um ex-discente, atualmente preso por tentativa de golpe de estado pela Polícia Federal, meu artigo publicado na extinta Carta Maior sobre a histeria contra o marxismo nas universidades públicas chegou ao seu conhecimento. Este provavelmente foi o “alerta de gatilho” no falecido guru, o qual publicou dois textos e uma gravação de uma aula com 40 minutos sobre mim e meu trabalho, repleto de ataques virulentos e desqualificações. Suco puro de ódio, misoginia, delírio e caçada às bruxas, quando finalmente consegui remover o vídeo do youtube, o estrago já estava feito com mais de 80 mil visualizações.
Por opção pessoal à época, não o processei, tampouco o respondi, após o choque. Em todo o debate público sério, a presença de decoro e respeito é fundamental, além da fuga de desqualificações pessoais do interlocutor adversário e do egocentrismo argumentativo. Faz-se oportuno, porém, reproduzir esta passagem do segundo texto “O nariz do viking”: “Não liguem para a palavra “decoloniais”: é o neologismo pedantíssimo com que alguns intelectuais anticolonialistas de Nova York insinuam que ainda são colonizados, coitadinhos. O que a professora [eu] está dizendo é que eles se irritam com os parágrafos em que Marx reconhece o papel positivo do colonialismo europeu no desenvolvimento das forças produtivas”.
A íntegra do monólogo furioso acaba sendo um testemunho não intencional do zeitgeist nascente às vésperas da crise política e depois democrática que arrasou o Brasil. Tão logo terminar de ler o artigo “O grande FMI universitário: como o colonialismo domina os estudos decoloniais”, de Vladimir Safatle, lembrei-me desta situação. Na verdade, volta e meia ela retorna como um fantasma. No contexto da “não polêmica”, armou-se um ambiente de perseguição ideológica dentro da universidade pública, e posteriormente, nas redes sociais. Com consequências pessoais e teóricas importantes, não seria exagero afirmar que foi uma experiência traumática. Infelizmente, não precisei aguardar a eleição de Jair Bolsonaro para estar na “linha de tiro” da extrema-direita, como observou o texto de Safatle.
Esta breve introdução com tintas pessoais indica apenas uma das posições desconfortáveis que me atribuem desde o início deste debate. Nos últimos anos, tenho buscado construir uma reflexão crítica sobre a crítica, com um vagar particularmente sensível às conjunturas políticas nacionais e discussões acadêmicas. Posição difícil que nunca agrada. Recentemente, foi justamente na USP que encontrei um espaço acolhedor para as minhas discussões sobre a diferença entre crítica ao colonialismo e teorias críticas ao colonialismo; seus impactos na teoria politica; sua relação tensa com a democracia. Enquanto em fevereiro de 2024 tive a felicidade de ministrar a disciplina “Colonialismo e teoria política” no âmbito do Programa de Pós-graduação de Ciência Política da USP, em fevereiro próximo terminarei sua adaptação à disciplina de graduação “Tópicos Especiais em Teorias das Relações Internacionais” no curso de Relações Internacionais da UFPel. O debate final sobre o livro clássico de J. Conrad “O coração das trevas” e o filme clássico de F. F. Coppola Apocalipse Now promete!
Faz pouco tempo e através da rede social instagram que tive acesso à ementa da disciplina de Vladimir Safatle sobre a mesma temática e seu artigo no site da Piauí. Quanto ao texto e de partida, confesso que seu objetivo principal me agradou, isto é, procurar demonstrar certos limites dos estudos decoloniais, diante sua estranha conversão à nova ortodoxia do pensamento crítico global. Também, a preocupação expressa sobre a maneira de fazer esta crítica em tempos de perseguição à esquerda, considerando a associação dos estudos decoloniais com este campo. Esta dupla preocupação me surpreende e paralisa há alguns anos, razão pela qual nunca escrevi o giro decolonial revisitado. Tenho, contudo, reunido contribuições críticas à crítica decolonial, encorajada desde a publicação do provocativo livro do filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez “El tonto y los canallas: notas para un republicanismo transmoderno”. Nossa sintonia acabou sendo registrada no Prefácio e Posfácio da tradução para o português do livro La poscolonialidad explicada a los niños. Eis um excerto do meu prefácio que ilustra o desconforto:
Do ponto de vista político, o projeto decolonial não está claramente comprometido com um projeto político em geral e um projeto político democrático em particular. Trago algumas observações para enxergar isso como uma necessidade cada vez mais urgente: a mudança radical do contexto político no qual o giro decolonial foi concebido, no auge do Left Turn latino-americano; a inexistência de uma teoria democrática pós-colonial e de uma teoria pós-colonial democrática capazes de estabelecer o cruzamento das agendas da descolonização e da democracia; uma nova ofensiva neocolonial e neoimperial, discursivamente despudorada, como epifenômeno da proliferação dos novos discursos anti-igualitários. Na onda global de desdemocratização que estamos testemunhando, essa ausência tem se tornado ainda mais indesejável, sobretudo porque as sociedades pós-coloniais como as latino-americanas não estão imunes à atual violência protofascista potencializada pelo passado de violência colonial. A atualização do projeto anti-pós-decolonial necessita dialogar profundamente com o projeto democrático para problematizar seu conteúdo (neo)liberal, ser capaz de responder ao protofascismo colonizado ascendente e vincular, no seu horizonte normativo, o projeto de descolonização com um projeto democrático não exclusivamente liberal. Tal necessidade da construção de uma dimensão democrática vinculante ao projeto decolonial é reforçada quando pensamos que para grande parte de suas influências políticas ou teóricas, a questão democrática ainda não estava tão colocada. O desafio do giro decolonial na América Latina é incorporar a democracia em sua intervenção teórica, propositiva e normativa, contribuindo para fortalecer, ressignificar e arejar o espectro da própria esquerda.
O incômodo com o status e a forma que a discussão decolonial vem adquirindo na indústria da crítica acadêmica global, portanto, é algo que já incomoda muitos de nós engajados há tempo no debate. Assim, o que me incomodou na intervenção de Safatle foi menos a completa desconsideração da discussão nacional existente - que se dedica às mesmas questões levantas no texto - do que os ares de novidade com os quais são anunciados várias sentenças, afirmações e conclusões. O idealismo dos estudos decoloniais, por exemplo, está longe de ser uma crítica nova. Os efeitos da distância do materialismo alertada por autores marxistas aos pós-coloniais nos anos 1990 pode ser aplicada tranquilamente para a crítica decolonial. De certa maneira, o próprio afastamento da discussão do problema do imperialismo motivou minha reflexão sobre imperialidade como o elo perdido do giro decolonial. Com efeito, a relação entre pós-coloniais e marxistas tem sido principalmente a de tensão, incompatibilidade e disputa, não obstante as inúmeras propostas que advogam pela aproximação entre ambos. O marxismo dissidente e eclético dos estudos subalternos indianos, a passagem clássica de Marx destacada em Orientalismo de Said, a leitura de Bhabha sobre Fanon: o pós-colonialismo despolitizou e culturalizou de certo modo a crítica ao colonialismo. A despeito das estranhas intervenções no debate geopolítico feitas por Mignolo, seu antimarxismo reforça esta tendência descambando para um tipo particular de reacionarismo.
O intrigante fenômeno que envolve a recepção da crítica decolonial, mesmo adquirindo contornos globais, não sustenta e autoriza sua comparação com o FMI, como faz Safatle no artigo. O que precisa ser compreendido e decifrado por nós é como e porquê a perspectiva (para não falar em discurso) decolonial seduz crescentemente públicos tão diversos - acadêmicos, militantes e artísticos, assim como tem se dado sua globalização, capaz de alargar e ampliar seu sentido inicial latino-americano. Aqui as ordens política e teórica se misturam e resultam sínteses perigosas: a preocupação se dá justamente pela mobilização circular de um revisionismo com limites que chegam perto, mas ainda não tocam, a falsificação. É justamente por isso que minha investigação atual aloca essa discussão no coração da crise democrática para pensarmos a apropriação (e não mais repulsa!) seletiva das críticas ao colonialismo via extrema-direita e seu encontro mais recente com a questão identitária via esquerda.
Para fazer uma crítica marxista ao giro decolonial como pretende Safatle, é importante conhecer as críticas marxistas ao próprio pós-colonialismo. O fato de que os estudos decoloniais reproduzem o mesmo tipo de geopolítica do conhecimento que condenam nos autores pós-coloniais, é bastante conhecida e reincidente no imenso universo das teorias críticas ao colonialismo. Essas construções acadêmicas não se deram via sul-sul, sem recepção/intermediação/modulação de universidades centrais nos Estados Unidos ou Inglaterra. Veja-se abaixo a representação da recepção dos estudos subalternos pelos estudos latino-americanos nos Estados Unidos, origem dos estudos decoloniais:

No saldo final, a grande lição que tirei do texto de Safatle é justamente a confirmação de que as relações entre centro e (semi)periferias são posicionadas de modo contingente, aplicando-se perfeitamente à construção ou debate acadêmico do próprio pensamento crítico também no nosso país.
